Um dia desses estava um tanto desanimado ao pensar sobre a postura da consulência em relação a Umbanda. Há anos venho trabalhando esta questão na abertura dos trabalhos, mostrando aos consulentes que a Umbanda é uma religião e devemos dentro do templo nos portar como manda a boa educação, solicitando que fiquem até o final da gira, pois é o que fazemos quando vamos a templos de qualquer outra religião.
Penso que as pessoas precisam desenvolver a religiosidade ao invés de crer que a espiritualidade vá fazer algo por alguém só porque este alguém está pedindo.
Já desolado e sem acreditar que isso mudará, sentado ao pé do Congá, olhava lá no fundo as cadeiras, arrumadas para a próxima reunião, o templo vazio, eu ali sozinho, a pensar...
As correntes que separam a consulência do espaço mediúnico, a porteira...pensei:
- Será que devo tirar estas correntes? Tirar a porteira? Integrar todos ao ritual? Bem, seria algo ousado e inovador!
Eis que pensando nisso percebo a presença tão rara de se manifestar nestas horas fora de hora...
- Filho, porque tanta pergunta?
Emocionado e arrepiado, chorando foi que travamos o diálogo:
- Oh Caboclo, vós que és nosso Pai Espiritual, me ilumine, o que acontece? Até quando será assim? Semana após semana, dezenas de pessoas sentando ansiosas ali naquelas cadeiras e eu falando da responsabilidade de cada um em seus tormentos e... Mesmo assim, esperam que um milagre aconteça sem o esforço deles, querem se enganar que vocês vão fazer algo por eles sem ao menos eles se movimentarem em fazer por merecer?
- Filho, quem disse que não vamos fazer algo?
- Vão?
- Sim, sempre fazemos!
- Então...bem, então não sei mais como agir, se vocês agem como empregados dessa gente que não querem se modificar...
- Quem disse que não se modificam?
- Modificam?
- É certo que sim.
- Filho, diga, quando você ainda um menino travesso, fazia suas estripulias e acabava com isso quebrando algumas regras e seu pai esbravejando vinha te repreender, você dava a verdadeira atenção ao sermão dele?
- Não Senhor. – respondi envergonhado.
- No entanto, sabia muito bem do seu erro, não é?
- Sim...
- E nem por isso deixava de cometer o mesmo erro, dias depois, não é?
- Isso é verdade.
- E lá vinha novamente a repreensão já mais intensificada, não é?
- Sim...
- E assim você foi vivendo, de acertos e erros, de lágrimas e risos, de decepções e alegrias, não é?
- Sim...
- Seu pai contribuiu de que forma na sua formação conceitual do que você acredita hoje ser o certo ou o errado?
- Não desistindo de falar e num certo momento não mais me cobrando...
- E deixando você viver a sua vida...não é?
- Sim é isso mesmo.
- Assim somos nós aqui filho, sabemos dos erros de cada um, e posso dizer, pouco importa, pois cada qual sabe do seu calo e vez por outra os lembramos disso, mas na maioria do tempo procuramos acalentar o coração destes milhares de filhos de Olorum que ainda frágeis se encontram na vida e que precisam mais de um amigo a escutar suas lamentações e este amigo prestativo tentar ajudá-los como for possível, sem cobrar nada, sem esperar nada, sem sermão, sem repreensão. Pois precisam apenas de liberdade orientada e assim filho, cada qual no seu devido tempo entenderá o que ontem não entendeu e passo a passo vão se organizando, e melhorando sua vida por atitudes e conceitos.
- Compreendo Senhor, mas o que isso tem haver com a religiosidade e a falta de senso daqueles que tomam seu passe e vão correndo embora.
- Tem tudo haver filho, primeiro desarme seu coração e não tome em suas mãos a necessidade de impor qualquer coisa que seja a ninguém.
- Desculpe...
- Religiosidade não é algo que se impõe ou se convence em ter, é um sentimento que nasce, brota na alma do indivíduo e o toma por completo. Religiosidade é um sentimento muito próximo do que entendemos sobre o amor. Você ama por convencimento ou porque te impuseram algo? Acaso o amor que você alimenta por pessoas de seu convívio foi comprado?
- Não Senhor, amo porque amo, não há como explicar...
- Então está me entendendo!
- Penso que sim...(risos).
- Quando você ama alguém que convive, é algo que surge, que vai brotando e lentamente vai te tomando, até que em um belo sentimento se torna, não é?
- É sim...
- Assim é a religiosidade, o individuo conhece uma denominação, que pode lhe chamar a atenção, assim é um homem e mulher, daí vai convivendo, vai conhecendo suas qualidades, vai observando seus defeitos e vai se aproximando, desta forma sem perceber está cativando um ao outro e de repente se vê pego por um sentimento que o envolve e a vida já se torna sem graça caso não tenha a presença da amada...
- Filho, isto é religiosidade! Amar sem saber, sem explicar, sem entender, simplesmente o coração diz que é bom e melhor é estar perto.
- E o conhecimento?
- Vem depois filho, respeitando também o tempo de cada um... A necessidade de dominar racionalmente aquilo que se ama é algo natural, pois senão com o tempo virão as desconfianças, volto ás relações homem e mulher, no início da relação ambos querem apenas o beijo, o abraço a companhia calada, querem ter e só depois de algum tempo quando existe a certeza de que se tem então vão se preocupar em ser, em saber para completar-se. Daí vem as perguntas incessantes sobre a vida do outro, os sonhos, os projetos, as crenças, as manias e isso nunca acaba, pois quando se ama, quanto mais se aprende sobre o outro, mais se ama, só que com um detalhe, depois de um tempo, este amor está equilibrado com a razão e você pode justificar logicamente seu amor...
- É certo isso Caboclo, amo a Umbanda porque a entendo.
- Também não esqueça que a entende da sua maneira, existem outras formas de entendê-la.
- Sei disso...Aproveitando seu exemplo, é como dois homens que podem tratar diferente a mesma mulher.
- Isto filho!
- Já que está me entendendo, olhe pra frente. O que vê?
- As cadeiras vazias...
- O que mais?
- A cerca com a porteira.
- Vamos falar sobre o que está do lado de lá da cerca.
- Diga Pai, já não agüento mais este tormento.
- Filho a Umbanda é uma religião sim, tem toda sua liturgia, sua doutrina, seus preceitos e é um caminho de religar o ser ao Supremo.
- Sei...
- Tem algo nela que difere das tradições religiosas. Ela como manifestação da compaixão Divina, não ajuda somente seus fiéis, nela todos que a recorrem podem ser beneficiados, claro, que de acordo com o coração e a Lei de Olorum. Ela não exige conversão, não exige classe social, enfim, não há pré-requisito para a Umbanda ajudar o próximo. Quando falo Umbanda já estou falando dos milhares de espíritos guias que a forma.
- Assim falou o Sr. 7 Encruzilhadas.
- Sim ele falou e você parece ter esquecido.
- Não é isso Pai.
- Aquela cerca existe para que você nunca esqueça disso e não invente nada inovador e ousado quando se tratar do que já está certo e funcional.
- (risos).
- Do lado de lá da cerca, poucos raros querem estar do lado de cá. E sabe porque?
- Não.
- Porque não desenvolveram ainda a religiosidade, aquele sentimento que acabei de falar.
- Entendo e o que fazer então?
- Primeiro tirar a idéia de que todos aqui dentro devem ter religiosidade umbandista e aceitar que toda tenda, templo e terreiros de Umbanda são portas abertas do coração de Olorum, que aguarda seus filhos amorosamente para lhes escutar e lhes beneficiar no que for preciso.
- Ah Senhor, isso me é confuso e contraditório.
- Não é não. Basta abrir seus olhos e lembre-se de quando e como conheceu a Umbanda. O que ela cobrou de você?
- Nada!
- E hoje está aqui, amando ela.
- Sim e ainda não me cobra nada, sou Umbandista porque sou livre Senhor.
- Liberdade filho, é disto que estou lhe falando. Deixamos todos livres para que possa caminhar, tropeçar, construir, destruir e juntos vamos ensinando, aprendendo, e mutuamente crescendo.
- Preciso de sabedoria meu Pai.
- Também não se compra...simplesmente acontece!
- (risos)
- Claro que cada Templo deve ter suas normas de ordem, conduta e preceitos, mas isto é individual e interno. O que cada um faz no coração dia a dia é problema de cada um.
- Entendo.
- Umbanda sempre foi e sempre será para o lado de lá da cerca, um pronto socorro de almas meu filho. Já foi num pronto socorro?
- Sim.
- Acaso o médico após te atender pediu que ficasse lhe esperando até o expediente acabar?
- (risos) não, não.
- E após seu atendimento, correu para seu lar, não é?
- Sim é isso mesmo.
- Assim, querendo ou não, é que funciona a dinâmica de atendimentos na Umbanda, todos são atendidos, serão auxiliados sim, dentro do possível mesmo que ele nada faça por “merecer”, porque merecimento é algo mais complicado do que sua curta capacidade de julgo pode compreender, filho amado. E ao fim de um trabalho espiritual, todos daqui podem retornar para seus lares certos de que cumpriram mais uma vez com suas “obrigações”. E sabe? Aqueles poucos que ali ficam aguardando o fim da reunião estão uns esperando alguém e outros mais poucos estão percebendo que um sentimento está envolvendo seu coração, amanhã você chamará de religiosidade.
- Senhor, estou envergonhado...
- Sabe quem é o religioso nessa história?
- Quem?
- Os que estão do lado de cá da cerca. Acaso brotaram do nada aqui? Ou um dia estiveram do lado de lá?
- Vieram de lá Senhor.
- Muito bem, e num momento deles cada qual com o seu perceberam que seria a Umbanda, a religião, um caminho de irem ao encontro de Olorum, fatalmente precisaram estar do lado de cá, para condicionar, ordenar e movimentar sua religiosidade que já não cabia mais do lado de lá.
- Compreendo Senhor é certo que não me imagino do lado de lá.
- Certo também é que um dia esteve lá.
- Sim.
- Então filho, ainda resta alguma dúvida?
- Me resta vergonha Pai!
- Não me envergonhe filho, sua curiosidade e sua petulância é o motivo que nos une, enquanto perguntar saberá que é um eterno aprendiz e me será útil, quando não mais perguntar terá se perdido e eu não terei em você nenhuma utilidade.
- Nossa!...desculpe...já não sei o que dizer...
- Então cale seu coração e viva o amor religioso que tens, transborde-o para todos, para alimentar cada faísca que houver no coração de cada um e antes de pensar que não precisa mais de seus sermões na abertura dos trabalhos lhe alerto que isso tem alimentado muitas faíscas e esta ousadia de colocar as pessoas entre a cruz e a espada é um caminho bom para a reflexão, adiantando muita coisa para nós no momento das consultas.
- Obrigado pelo seu amor Senhor...não saberia caminhar sem vossos pés...sinto tanta falta destas prosas com vós.
- Eu falo ao seu coração filho, não preciso me fazer ouvir quando tenho o seu coração para sentir. Somos um só nessa caminhada.
- Enxugue as lágrimas e não esqueça a conclusão.
- Diga!
- Umbanda é assim, tão simples e tão complicada, um paradoxo Divino, será eterno as interpretações pessoais sobre ela e sobre sua dinâmica, no entanto, nós por amor vamos nos adequando aos limites de cada qual porque o que vale é estar entre nossos irmãos encarnados. Não cobramos nada de ninguém, desejamos sim que cada qual se encontre, reconheçam em si suas qualidades, suas potencias e as use para se beneficiar e beneficiar o meio que vive, porém este é nosso desejo, não cobraremos isso pra nossa ajuda se estender aos lares diversos deste plano. Onde houver um coração disposto a nos receber, lá estaremos do jeito que for, pois se estivermos perto sabemos que lentamente podemos ajudar este coração para o caminho da independência e da liberdade espiritual. Assim foi com você e com todos os milhares de mediadores espalhados pelos milhares de terreiros que da sua forma peculiar levam a bandeira da Umbanda, como boa nova a todas as famílias, bandeira esta que é branca, sem nome, sem símbolo, sem cores, branca, porque cristalina é a fé na vida de todos. Não esqueça disso filho, e você como um mediador, como tantos outros milhares, apenas se permita ser o que é, o meio.
Agora, fique em paz!
- Senhor antes que se vá, me responda. O que acontece com as velas que os consulentes levam embora, quando eles acendem o que ocorre na casa deles, no espírito deles? Enfim, porque disto?
- Ah filho, muita coisa acontece, mas esta dúvida será respondida num outro momento, numa outra oportunidade, na voz do seu coração.
- Fique na paz de Olorum e avante!
- Salve vossa força Sr. Caboclo Tupinambá, nos ampare sempre!
Senti um forte arrepio no corpo, sabia que este amoroso pai estava a me abraçar. Minha vista turva pelas lágrimas que insistiam a cair dos olhos, ainda pude olhar do lado de lá da cerca e percebi que algo mudava profundamente naquele Templo.
Do lado de cá estenderemos as mãos aos que do lado de lá se encontram!
Do lado de cá podemos conviver com a espiritualidade já como beneficiadores e não beneficiados e isto deve ser claro a todos, que estejam preparados para serem mais do que ter.
Saravá a Umbanda, a menina dos olhos de Olorum!
Penso que as pessoas precisam desenvolver a religiosidade ao invés de crer que a espiritualidade vá fazer algo por alguém só porque este alguém está pedindo.
Já desolado e sem acreditar que isso mudará, sentado ao pé do Congá, olhava lá no fundo as cadeiras, arrumadas para a próxima reunião, o templo vazio, eu ali sozinho, a pensar...
As correntes que separam a consulência do espaço mediúnico, a porteira...pensei:
- Será que devo tirar estas correntes? Tirar a porteira? Integrar todos ao ritual? Bem, seria algo ousado e inovador!
Eis que pensando nisso percebo a presença tão rara de se manifestar nestas horas fora de hora...
- Filho, porque tanta pergunta?
Emocionado e arrepiado, chorando foi que travamos o diálogo:
- Oh Caboclo, vós que és nosso Pai Espiritual, me ilumine, o que acontece? Até quando será assim? Semana após semana, dezenas de pessoas sentando ansiosas ali naquelas cadeiras e eu falando da responsabilidade de cada um em seus tormentos e... Mesmo assim, esperam que um milagre aconteça sem o esforço deles, querem se enganar que vocês vão fazer algo por eles sem ao menos eles se movimentarem em fazer por merecer?
- Filho, quem disse que não vamos fazer algo?
- Vão?
- Sim, sempre fazemos!
- Então...bem, então não sei mais como agir, se vocês agem como empregados dessa gente que não querem se modificar...
- Quem disse que não se modificam?
- Modificam?
- É certo que sim.
- Filho, diga, quando você ainda um menino travesso, fazia suas estripulias e acabava com isso quebrando algumas regras e seu pai esbravejando vinha te repreender, você dava a verdadeira atenção ao sermão dele?
- Não Senhor. – respondi envergonhado.
- No entanto, sabia muito bem do seu erro, não é?
- Sim...
- E nem por isso deixava de cometer o mesmo erro, dias depois, não é?
- Isso é verdade.
- E lá vinha novamente a repreensão já mais intensificada, não é?
- Sim...
- E assim você foi vivendo, de acertos e erros, de lágrimas e risos, de decepções e alegrias, não é?
- Sim...
- Seu pai contribuiu de que forma na sua formação conceitual do que você acredita hoje ser o certo ou o errado?
- Não desistindo de falar e num certo momento não mais me cobrando...
- E deixando você viver a sua vida...não é?
- Sim é isso mesmo.
- Assim somos nós aqui filho, sabemos dos erros de cada um, e posso dizer, pouco importa, pois cada qual sabe do seu calo e vez por outra os lembramos disso, mas na maioria do tempo procuramos acalentar o coração destes milhares de filhos de Olorum que ainda frágeis se encontram na vida e que precisam mais de um amigo a escutar suas lamentações e este amigo prestativo tentar ajudá-los como for possível, sem cobrar nada, sem esperar nada, sem sermão, sem repreensão. Pois precisam apenas de liberdade orientada e assim filho, cada qual no seu devido tempo entenderá o que ontem não entendeu e passo a passo vão se organizando, e melhorando sua vida por atitudes e conceitos.
- Compreendo Senhor, mas o que isso tem haver com a religiosidade e a falta de senso daqueles que tomam seu passe e vão correndo embora.
- Tem tudo haver filho, primeiro desarme seu coração e não tome em suas mãos a necessidade de impor qualquer coisa que seja a ninguém.
- Desculpe...
- Religiosidade não é algo que se impõe ou se convence em ter, é um sentimento que nasce, brota na alma do indivíduo e o toma por completo. Religiosidade é um sentimento muito próximo do que entendemos sobre o amor. Você ama por convencimento ou porque te impuseram algo? Acaso o amor que você alimenta por pessoas de seu convívio foi comprado?
- Não Senhor, amo porque amo, não há como explicar...
- Então está me entendendo!
- Penso que sim...(risos).
- Quando você ama alguém que convive, é algo que surge, que vai brotando e lentamente vai te tomando, até que em um belo sentimento se torna, não é?
- É sim...
- Assim é a religiosidade, o individuo conhece uma denominação, que pode lhe chamar a atenção, assim é um homem e mulher, daí vai convivendo, vai conhecendo suas qualidades, vai observando seus defeitos e vai se aproximando, desta forma sem perceber está cativando um ao outro e de repente se vê pego por um sentimento que o envolve e a vida já se torna sem graça caso não tenha a presença da amada...
- Filho, isto é religiosidade! Amar sem saber, sem explicar, sem entender, simplesmente o coração diz que é bom e melhor é estar perto.
- E o conhecimento?
- Vem depois filho, respeitando também o tempo de cada um... A necessidade de dominar racionalmente aquilo que se ama é algo natural, pois senão com o tempo virão as desconfianças, volto ás relações homem e mulher, no início da relação ambos querem apenas o beijo, o abraço a companhia calada, querem ter e só depois de algum tempo quando existe a certeza de que se tem então vão se preocupar em ser, em saber para completar-se. Daí vem as perguntas incessantes sobre a vida do outro, os sonhos, os projetos, as crenças, as manias e isso nunca acaba, pois quando se ama, quanto mais se aprende sobre o outro, mais se ama, só que com um detalhe, depois de um tempo, este amor está equilibrado com a razão e você pode justificar logicamente seu amor...
- É certo isso Caboclo, amo a Umbanda porque a entendo.
- Também não esqueça que a entende da sua maneira, existem outras formas de entendê-la.
- Sei disso...Aproveitando seu exemplo, é como dois homens que podem tratar diferente a mesma mulher.
- Isto filho!
- Já que está me entendendo, olhe pra frente. O que vê?
- As cadeiras vazias...
- O que mais?
- A cerca com a porteira.
- Vamos falar sobre o que está do lado de lá da cerca.
- Diga Pai, já não agüento mais este tormento.
- Filho a Umbanda é uma religião sim, tem toda sua liturgia, sua doutrina, seus preceitos e é um caminho de religar o ser ao Supremo.
- Sei...
- Tem algo nela que difere das tradições religiosas. Ela como manifestação da compaixão Divina, não ajuda somente seus fiéis, nela todos que a recorrem podem ser beneficiados, claro, que de acordo com o coração e a Lei de Olorum. Ela não exige conversão, não exige classe social, enfim, não há pré-requisito para a Umbanda ajudar o próximo. Quando falo Umbanda já estou falando dos milhares de espíritos guias que a forma.
- Assim falou o Sr. 7 Encruzilhadas.
- Sim ele falou e você parece ter esquecido.
- Não é isso Pai.
- Aquela cerca existe para que você nunca esqueça disso e não invente nada inovador e ousado quando se tratar do que já está certo e funcional.
- (risos).
- Do lado de lá da cerca, poucos raros querem estar do lado de cá. E sabe porque?
- Não.
- Porque não desenvolveram ainda a religiosidade, aquele sentimento que acabei de falar.
- Entendo e o que fazer então?
- Primeiro tirar a idéia de que todos aqui dentro devem ter religiosidade umbandista e aceitar que toda tenda, templo e terreiros de Umbanda são portas abertas do coração de Olorum, que aguarda seus filhos amorosamente para lhes escutar e lhes beneficiar no que for preciso.
- Ah Senhor, isso me é confuso e contraditório.
- Não é não. Basta abrir seus olhos e lembre-se de quando e como conheceu a Umbanda. O que ela cobrou de você?
- Nada!
- E hoje está aqui, amando ela.
- Sim e ainda não me cobra nada, sou Umbandista porque sou livre Senhor.
- Liberdade filho, é disto que estou lhe falando. Deixamos todos livres para que possa caminhar, tropeçar, construir, destruir e juntos vamos ensinando, aprendendo, e mutuamente crescendo.
- Preciso de sabedoria meu Pai.
- Também não se compra...simplesmente acontece!
- (risos)
- Claro que cada Templo deve ter suas normas de ordem, conduta e preceitos, mas isto é individual e interno. O que cada um faz no coração dia a dia é problema de cada um.
- Entendo.
- Umbanda sempre foi e sempre será para o lado de lá da cerca, um pronto socorro de almas meu filho. Já foi num pronto socorro?
- Sim.
- Acaso o médico após te atender pediu que ficasse lhe esperando até o expediente acabar?
- (risos) não, não.
- E após seu atendimento, correu para seu lar, não é?
- Sim é isso mesmo.
- Assim, querendo ou não, é que funciona a dinâmica de atendimentos na Umbanda, todos são atendidos, serão auxiliados sim, dentro do possível mesmo que ele nada faça por “merecer”, porque merecimento é algo mais complicado do que sua curta capacidade de julgo pode compreender, filho amado. E ao fim de um trabalho espiritual, todos daqui podem retornar para seus lares certos de que cumpriram mais uma vez com suas “obrigações”. E sabe? Aqueles poucos que ali ficam aguardando o fim da reunião estão uns esperando alguém e outros mais poucos estão percebendo que um sentimento está envolvendo seu coração, amanhã você chamará de religiosidade.
- Senhor, estou envergonhado...
- Sabe quem é o religioso nessa história?
- Quem?
- Os que estão do lado de cá da cerca. Acaso brotaram do nada aqui? Ou um dia estiveram do lado de lá?
- Vieram de lá Senhor.
- Muito bem, e num momento deles cada qual com o seu perceberam que seria a Umbanda, a religião, um caminho de irem ao encontro de Olorum, fatalmente precisaram estar do lado de cá, para condicionar, ordenar e movimentar sua religiosidade que já não cabia mais do lado de lá.
- Compreendo Senhor é certo que não me imagino do lado de lá.
- Certo também é que um dia esteve lá.
- Sim.
- Então filho, ainda resta alguma dúvida?
- Me resta vergonha Pai!
- Não me envergonhe filho, sua curiosidade e sua petulância é o motivo que nos une, enquanto perguntar saberá que é um eterno aprendiz e me será útil, quando não mais perguntar terá se perdido e eu não terei em você nenhuma utilidade.
- Nossa!...desculpe...já não sei o que dizer...
- Então cale seu coração e viva o amor religioso que tens, transborde-o para todos, para alimentar cada faísca que houver no coração de cada um e antes de pensar que não precisa mais de seus sermões na abertura dos trabalhos lhe alerto que isso tem alimentado muitas faíscas e esta ousadia de colocar as pessoas entre a cruz e a espada é um caminho bom para a reflexão, adiantando muita coisa para nós no momento das consultas.
- Obrigado pelo seu amor Senhor...não saberia caminhar sem vossos pés...sinto tanta falta destas prosas com vós.
- Eu falo ao seu coração filho, não preciso me fazer ouvir quando tenho o seu coração para sentir. Somos um só nessa caminhada.
- Enxugue as lágrimas e não esqueça a conclusão.
- Diga!
- Umbanda é assim, tão simples e tão complicada, um paradoxo Divino, será eterno as interpretações pessoais sobre ela e sobre sua dinâmica, no entanto, nós por amor vamos nos adequando aos limites de cada qual porque o que vale é estar entre nossos irmãos encarnados. Não cobramos nada de ninguém, desejamos sim que cada qual se encontre, reconheçam em si suas qualidades, suas potencias e as use para se beneficiar e beneficiar o meio que vive, porém este é nosso desejo, não cobraremos isso pra nossa ajuda se estender aos lares diversos deste plano. Onde houver um coração disposto a nos receber, lá estaremos do jeito que for, pois se estivermos perto sabemos que lentamente podemos ajudar este coração para o caminho da independência e da liberdade espiritual. Assim foi com você e com todos os milhares de mediadores espalhados pelos milhares de terreiros que da sua forma peculiar levam a bandeira da Umbanda, como boa nova a todas as famílias, bandeira esta que é branca, sem nome, sem símbolo, sem cores, branca, porque cristalina é a fé na vida de todos. Não esqueça disso filho, e você como um mediador, como tantos outros milhares, apenas se permita ser o que é, o meio.
Agora, fique em paz!
- Senhor antes que se vá, me responda. O que acontece com as velas que os consulentes levam embora, quando eles acendem o que ocorre na casa deles, no espírito deles? Enfim, porque disto?
- Ah filho, muita coisa acontece, mas esta dúvida será respondida num outro momento, numa outra oportunidade, na voz do seu coração.
- Fique na paz de Olorum e avante!
- Salve vossa força Sr. Caboclo Tupinambá, nos ampare sempre!
Senti um forte arrepio no corpo, sabia que este amoroso pai estava a me abraçar. Minha vista turva pelas lágrimas que insistiam a cair dos olhos, ainda pude olhar do lado de lá da cerca e percebi que algo mudava profundamente naquele Templo.
Do lado de cá estenderemos as mãos aos que do lado de lá se encontram!
Do lado de cá podemos conviver com a espiritualidade já como beneficiadores e não beneficiados e isto deve ser claro a todos, que estejam preparados para serem mais do que ter.
Saravá a Umbanda, a menina dos olhos de Olorum!
Fonte: contato@tvus.com.br
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