segunda-feira, 30 de julho de 2007

BAIANA MARIA 7 SAIAS

Por Rodrigo Queiroz

Depois de toda a alegria de encontrar velhos amigos e ministrar mais uma turma de Magia das Oferendas, especialmente na Fundação Cacique Cobra Coral, neste dia teria a festa em louvo á Baiana...
Tudo correndo tranquilamente, a passagem do Sr. Cobra Coral me emocionou particularmente pela admiração ao trabalho que o mesmo desenvolve, depois os marinheiros, boiadeiros mesclado com todos outros que quisessem ali prestar a caridade, observando isso fui abordado pelo Sr. Boiadeiro que dirigia a gira:
- Moço, o que enriquece nossa religião?
Como sempre as entidades nos fazem perguntas de difícil resposta imediata, como responder esta simples pergunta quando a resposta é tão vasta, ainda quando amamos esta maravilhosa Umbanda, me arrisquei:
- Sr. esta é uma pergunta de ampla resposta.
- É a nossa mescla, a mistura de raças, valores, crenças, cores, classes etc. Veja a gira, temos Zé Pelintra, Boiadeiro, Baiano, Exu, Marinheiro, Cigano, todos juntos trabalhando. Pra quê estipular um dia para cada linha se todos podem dar as mãos e fazer um trabalho melhor? – dito isto ele virou as costas em direção ao seu posto ao que ainda olhou pra trás e disparou: - Pense nisso moço!
Como não pensar, estava ali nos meus olhos a beleza deste conceito, a unidade na diversidade, isto que honra e justifica o termo Um-banda.
Assim foi correndo a gira...
Logo mais os mentores de despediam, finalizando com o baile da Cigana, seu nome é amor, como canta irmão Hans, palmas que vibraram o ambiente e foi-se a cigana correr seu trecho.
Chegou o grande momento, a presença da Baiana e falangeiros...
Irmão Scritori e Bárbara vibram finalmente o couro e tudo muda naquele ambiente ao som do ponto: “...Baiana seu tabuleiro tem axé...”
Ao pé do altar uma imensa oferenda de cocos verde, frutas e flores amarela, 21 velas amarelas e sete copos de bambu com batida de coco, dois coqueiros no vaso faziam uma espécie de pilastra, isto era o que olhos da carne permitiam observar, porém o manto amarelo vivo que cobria parte da oferenda, ao som do atabaque puxou pra si as chamas das velas e uma intensa luz começou a se formar e um arco de luz unia as pontas nos coqueiros, das flores uma fumaça luminosa se dissipava no ambiente, logo percebi ser o prâna e então um portal de intensa luminosidade se formou de onde saiu aquela bela morena, passo seguinte conectada na Sra. Adelaide, seu aparelho.
Alguns emocionados, com o rosto brilhante ela saúda o seu portal, ou as oferenda? Depende do ponto de vista, hehehe...
Vira-se á curimba e reverencia, talvez o toque ou aqueles dois que viste nascer e ali já adultos podiam tocar e cantar à ela. Da sua saia que no físico tinha sete cores em camadas o que não foi possível observar no etérico, ela se envolvia por luzes circulantes, multicolorido sem parada, fluxo acelerado e mais parecia um organismo vivo, pois daquela “saia” realmente muita mironga saia, a cada um que ela abraçava a saia envolvia de luz e a emoção era incontrolável, após abraçar a todos ela já até poderia ir embora, pois todo o trabalho de energização já estava feito...
Sentou-se e um a um prestou suas palavras de orientação e conforto que mexia com o coração e as lágrimas eram inevitáveis...
“A Umbanda é linda pra quem sabe trabalhar...”
Não pude ficar até o encerramento do trabalho...mas ainda pude ver a chegada dos baianos e com a presença do Mestre Severino que com um atabaque fazia ressonar o som de sete ao mesmo tempo...
Ali tentei plantar uma semente do saber no curso e saí com um coqueiral na minha alma...
Deixo meu fraterno abraço a todos da Toca da Coral, Bonfá com sua inspiração a nos emocionar, Scritori com seu espírito ordenador a nos honrar, Miguel com visão a nos clarear e Adelaide com seu Sacerdócio Natural a nos abençoar...
Aqui declino minha gratidão e singela homenagem á Baiana, Maria das 7 Saias...
Saravá! Salve a Bahia!

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quinta-feira, 26 de julho de 2007

NA MATA VIRGEM

Por Rodrigo Queiroz

- Venha filho, vamos caminhar.
Assim anunciou o velho Pajé, balançando um maracá, quando me dei por conta estava em meio a uma clareira em plena mata virgem, árvores frondosas e maravilhosas raramente vistas no plano físico da vida. Ele me conduziu para uma estreita trilha.
- Filho vamos para uma experiência importante, é necessário que não dê tanta importância a beleza do lugar, mas sim apure seus sentidos, visão, olfato, tato, paladar e serenidade. Perceba a textura do chão no seu pé, a leveza das folhas em suas mãos, o cheiro de ervas no ar e a brisa fresca a acarinhar sua face.
- Posso sentir o gosto de seiva na boca Pajé.
- Sinal que já está próximo do que quero filho. Respire fundo e feche os olhos.
- Pajé, posso enxergar com olhos fechados! – exclamei emocionado.
- O que vê filho?
- Vejo troncos de luz, silfos, salamandras, folhas irradiantes...
- Lentamente abra os olhos.
- Sim...
- Continua vendo?
- Nitidamente Pajé...
- O que vê filho é a vida neste reino natural, tão mal percebida pelos encarnados e infelizmente entre os próprios fiéis do culto á natureza.
- Umbanda?
- Sim.
- Apure sua visão e perceba que é possível ver a seiva circular dentro das arvores, escutar o coração bater no peito dos pássaros e experienciar a presença dos entes invisíveis ao olho material, que são eles, os duendes, gnomos, fadas, silfos, ninfas e tanto mais.
- Quanta beleza Pajé!
- Quanta vida filho, quanta vida!
- Sim, pulsante...
- Agora me acompanhe.
Nos dirigimos a outra clareira, lá tinha muitas pessoas, vestidas de branco, colares, atabaque e muitas frutas, logo notei que se tratava de um terreiro pronto a iniciar uma atividade, curioso fiquei a observar atentamente, encantado com o toque harmônico da curimba e os raios de luz que espargiam no ambiente em direção dos presentes a cada batida das mãos no couro. Alguns outros se organizavam para no meio da roda depositar as oferendas, muitas frutas, velas, incensos, bebidas. Conseguia visualizar a luminosidade aurica de cada um, em cores e tons dos mais variadas.
- Filho, este grupo de cultuadores da natureza divina, está realizando um culto de exaltação ao senhor das matas...
- Pai Oxossi!
- Sim, e para tanto é comum postar oferendas em seu louvor, na Umbanda recorremos ao uso da natureza, como frutas, pedras, bebidas, incenso etc. Dispensando qualquer uso de imolação de animais.
- Sei Pajé, compreendo e tenho pra mim que é o correto, somente que muitos que cruzam o culto de umbanda com o africano recorrem á praticas da imolação...
- Sim filho, porém não vamos acessar este assunto no momento, vamos nos ater a esta liturgia de hoje e colher as impressões pertinentes.
- Sim Senhor.
Ele calado sacudia seu maracá e eu observando tudo, vi que as frutas emitiam luzes e quando cortadas era como que se abrisse uma caixa de luz, que de dentro um clarão escapava e por alguns minutos ficavam ali a iluminar e criando um campo de luz e energia indescritível. Quando a curimba acelerou o toque vi um portal se abrir na frente da oferenda e dele dezenas de caboclos, caboclas e encantados saíram, abraçaram todos os presentes, dançavam e cantavam. Realmente era uma festa, uma exaltação e finalmente entoam o ponto.
...As matas estavam escuras...e um anjo a iluminou...e no centro da mata virgem...foi Oxósse quem chegou...mas ele é o rei ele é o rei ele é o rei...
As folhas no chão começaram a voar e as entidades presentes em reverência batiam a cabeça ao chão, quando como que uma explosão e uma luz cegante se fez presente um emissário do Sr. Oxossi, sua luz verde era intensa que não pude me manter com a cabeça levantada, os caboclos ajoelhados bradavam em reverência e louvor, do lado físico alguns médiuns entravam em transe energético e a curimba acelerava o toque, poucos segundos passados novamente a explosão e Oxossi se recolheu.
Na oferenda a luz era mais intensa.
Com os médiuns em oração e ajoelhados, as entidades estendiam as mãos em direção a oferenda e o inusitado acontecia. Dos elementos saiam uma substância esverdeada parecido com uma massa elástica que eles moldavam e iam aplicando nos fiéis presentes, rapidamente era absorvido pelos chakras e a luminosidade do corpo aurico deles era modificado, sutilizava e irradiava mais. Por alguns minutos este procedimento ocorreu e as entidades se recolheram para o portal mencionado.
- Viu filho, nenhuma entidade comeu as frutas.
- Mas eles não precisam comer para ficar tratado?
- Não filho, compreenda que somos de uma dimensão bem mais sutil que a de vocês e se nos aventurássemos a ingerir o prâna dos vegetais do plano físico nos traria grande desarranjo energético, quando precisamos nos “alimentar” encontramos o mesmo em nossa esfera e não na de vocês.
- Entendo...
- Entenda também que fora a liturgia religiosa, a necessidade de oferendas são para vocês mesmos que quando encarnaram perderam a capacidade de extrair o prâna da natureza e recorrem a esta prática para que nós os mentores os auxilie na extração e aplicação do prâna em vocês mesmos.
- Para que?
- A fim de sutilizar vossas energizar, equilibrar os chakras, curar doenças e muito mais. Também guardamos para os médiuns usarem nos atendimentos.
- Pajé de onde tiram tantas teorias que só ajudam a complicar a compreensão?
- Talvez das observações limitadas ao próprio conhecimento, ruim é quando saem do bom senso e fundamentam suas teorias no absurdo.
- Podemos fazer sempre oferendas?
- Sim, quando e onde bem entender e lá um de nós estaremos a auxiliar na extração do prâna.
- Incrível.
- Agora vamos filho, logo em breve retomamos esta prosa para aprofundamentos práticos, aproveite e vamos ensinar estas práticas...
Acordei após estas palavras, poderia ser um sonho...quero como uma revelação...
Saravá!

terça-feira, 17 de julho de 2007

CONHEÇA-TE A TI MESMO

Por Rodrigo Queiroz

Congá firmado, corrente mediúnica a postos e na consulência consulentes pegavam suas senhas e se acomodavam como podiam, pois toda última sexta feira do mês é sempre assim, gira de Exu e o terreiro enche tanto que muitos ficam de pé e formam fila até o portão.
Na expectativa de milagres fáceis ou mesmo por achar que exu seja uma espécie de “Office-boy do além”, muitos recorrem aos terreiros solicitando soluções emergenciais às suas tormentas.
O dirigente abre a gira e após todo ritual pertinente os exus e pomba giras incorporam nos médiuns e aguardam o atendimento que acontece adiante...
- Salve tu moça!
- O ... oi... Bo...boa noite...
- Boa noite moça, é sua primeira vez por estas bandas?
- Sim.
- Seja bem vinda.
- Obrigada!
- O que lhe traz aqui?
- Então Exu, é que meu irmão precisa separar da noiva...
- ...
- Pois é, ela só faz inferno na minha vida e sei que ele não é feliz, ele abandonou a família, eu moro com ele e ela está tirando-o do seio familiar...
- ...
- Bem, pensando nisso é que trouxe o RG dele, uma foto dela, uma roupa dela e endereço dele...
- “Mais uma serpente revestida de santa” – meditou o exu.
- Então Exu? O que fará para livra-lo desta piranha?
Esta afirmação bastou para que o Exu se manifestasse.
- Certo moça vamos ler o que vejo aqui, primeiro saiba que esta mulher que está com seu irmão o ama verdadeiramente sendo igualmente correspondida, ele jamais imaginou viver tamanho sentimento e nela encontrou o sentido de liberdade e crescimento. Liberdade porque finalmente se livrará de você, uma mulher encalhada e ressequida no coração, que não acredita no amor, não se movimenta para mudar sua realidade, vive do dinheiro que ele lhe dá e acomodada com esta vidinha e medo de perder tudo isto, sente-se no direito de ter o seu irmão como posse para que nada mude na sua vida a ponto de se propor a encomendar um “feitiço” para desgraçar a vida dele e por fim amarra-lo em você.
- Moça, esta é sinceramente uma das situações mais inusitadas que vivencio, uma irmã querendo amarrar o irmão, enquanto que o normal seria uma apaixonada querendo prender o apaixonado. Pior é este sentimento que te move, covarde e inescrupuloso...
A mulher já em prantos, reconhecendo o erro que cometera não consegue pronunciar uma palavra ao que o exu finaliza.
- Sendo assim, pegue esta roupa, fotos e demais elementos, volte pra sua casa, olhe no espelho e se envergonhe de ser o que está sendo, se proponha a mudar e trate bem esta mulher que será a companheira do seu irmão, tenha nela sua amiga que jamais irá te desamparar, antes de dormir ore ao Criador pedindo perdão por envergonha-lo.
- Desculpe Exu....
- Leve esta vela, acenda quando sentir vontade e lembre-se que neste dia se deparou com um Exu...tenha uma boa noite...
- Desculpe Exu...

Pois é leitor, estas situações são mais comuns do que parecem. Acredite, esta é uma história verídica e bem resumida que narra o egoísmo humano, a covardia e o julgo inversor de valores. Por vezes nos deparamos com situações que não nos pertencem, avaliamos atitudes, alegrias, tristezas e decisões das pessoas no nosso convívio sem que sejamos interpelados para isso, tomamos em nossas mãos o papel de juiz da vida alheia, promotor e executor de tudo aquilo que não nos compete.
Não vou me ater em delongas e proponho a você leitor, por algum momento se sentiu na história? Sobre quem e o que falaste nos últimos dias? Você fala ou escuta mais?
Responda sinceramente estas questões e ao se olhar no espelho lembre-se da frase tão preconizada pelo pensador Sócrates: - Conheça-te a ti mesmo. Perceba como deve agir e seja feliz.
Meu fraterno abraço...Saravá!