terça-feira, 17 de abril de 2007

FIRMEZA DO TERREIRO

Por Rodrigo Queiroz

Sexta-feira, noite de lua cheia, clima morno e céu estrelado, para todo efeito um dia perfeito.
A brasa ardendo no turíbulo provocando o carvão a crepitar anunciando fogo ardente para receber as ervas...
No espaço físico do terreiro muita movimentação, médiuns chegando e se preparando para assumirem seus lugares, alguns passavam pano no chão molhado na “água de erva” para imantar e purificar o “chão sagrado”, desta forma um belo aroma circulava no ambiente, um misto de alfazema com folha de laranjeira.
Na curimba o Ogã fazia os últimos ajustes no couro dos atabaques...
Na consulência algumas cambones preparam os panfletos com mensagens de reflexão, outras distribuíam as senhas e recepcionava as pessoas explicando sobre os trabalhos da casa. Como é costumeiro sempre chegam aqueles que visitam pela primeira vez uma casa de Umbanda e despendem mais atenção...
No Congá o Dirigente finalizava as firmezas acendendo as velas, incensos e colocando as bebidas nas taças de alguns assentamentos.
Na Tronqueira o Pai Pequeno firmava os “cabras”, os Exus e Pomba Giras para a segurança dos trabalhos.
Tudo correndo perfeito como de costume e parecia que seria mais uma sexta feira como as outras, mais um trabalho...
Do lado etérico as coisas aconteciam, o chão limpo com ervas brilhava uma luz esverdeada que era capitada pelos pés dos médiuns que ali só podiam pisar descalços, esta sutil luz era absorvida e percorrendo pelo corpo etérico dos médiuns causava uma sensação de tranqüilidade, do altar a cada vela acesa raios como fios de cabelo se espalhavam pelo terreiro e queimava miasmas nos corpos de quem chegava, outras velas recolhiam pra dentro de si algumas energias e outras tantas emanam energias variadas que iam sendo absorvidas por todos os presentes. Na Tronqueira o Pai Pequeno Luca não se sentia bem. No assentamento feito com alguidar, moedas, pregos e pedras banhadas no marafo havia um aspecto diferente aos seus olhos, do nosso ele estava invertido, ou seja, por ele, que é um pequeno portal de transito energético emanavam uma espécie de gás denso e negro, entorpecendo a percepção mediúnica dele que representava ali dentro alguém de muita segurança.
- Salve tu Calunga!
- Salve Cobra Coral.
- Do que está precisando companheiro?
- Fui avisado que esta noite será trabalhosa...
- Todas são companheiro, pra nós nunca falta trabalho, há há há.
- É Exu, mas hoje teremos “gente grande” pra derrubar e meu aparelho está prejudicado com a presença daquele gás maldito dentro da Tronqueira.
- Então...
- Então é onde preciso de você que não se prejudica com este tipo ação. Entre lá e cesse este portal.
- Certo Calunga, vou lá.
Exu Cobra Coral chamou dois acompanhantes e adentraram na Tronqueira. Não era muito espaço, mas tinha uma atuação ampla.
Pai Luca sentia-se zonzo e forçava sua visão para tentar encontrar de onde vinha aquela sensação, Exu Cobra Coral se aproximou dele e o cobriu com um manto, sacou um cajado em forma de cobra e quando cravou no meio do assentamento, uma explosão aconteceu e num só ato ele foi tragado junto com seus companheiros pra dentro daquele portal. A explosão foi percebida pelos demais Exus que estavam de sentinela. Do lado físico, o alguidar estilhaçou, Pai Luca já estava melhor e se assustou com o fenômeno, saiu da Tronqueira, deixando lá os pedaços do assentamento.
Exu Calunga correu para a Tronqueira e se assustou ao ver as paredes manchadas de sangue preto e larvas espalhadas pelo chão.
- Dona Sete Saias, cuide da Tronqueira junto com o Exu Tranca Tudo, selem este espaço, ninguém entra e ninguém sai. – ordenou Calunga aos dois sentinelas.
- Certo querido. – aceitou Dona Sete Saias.
- Luca, proíba a todos de entrarem na Tronqueira, avise o Seu João para que também não entre. – Calunga inspirou em Luca.
Luca conseguiu captar a mensagem e foi ao encontro do Dirigente João.
- Pai, um momento da sua atenção por favor.
- Sim, diga Luca, o que houve? Está suando e pálido!
- Pai o assentamento do Exu Ferro estilhaçou, eu passei muito mal lá dentro e o Seu Calunga me inspirou de que ninguém deve entrar lá, inclusive o Sr. até que se inicie a gira.
- Até eu Luca? Mas...
- Pai siga meu conselho.
- Está certo Luca, afinal faltam cinco minutos pra iniciar a gira e não posso mais me dispersar, vá tomar uma água e se posicione no seu lugar.
- Tudo bem...
O Dirigente Pai João tentou se concentrar para abrir comunicação com seu Exu Ferro e não obteve sucesso, preocupou-se...
CONTINUA...
(Ditado por Pai Zuluá)