quinta-feira, 21 de junho de 2007

O INDIVIDUO - Ensaio teórico sobre a individualidade do ser e a libertação de paradigmas

Por Rodrigo Queiroz


Na última reunião para o trabalho de Socorro Espiritual que o TEUS mantém quinzenalmente, voltado para o resgate de espíritos caídos em situações emergenciais e já há algum tempo este trabalho estava focado ao socorro do grupo, entendendo que nós estávamos tão necessitados de ajuda consciencial para melhor resgate dos desafortunados irmãos espirituais. Enfim, nesta última oportunidade com a presença do irmão Camilo que conduziu uma vivência com o grupo, onde ele narrou uma projeção espiritual para depois cada um expor suas experiências.
Começando com o relaxamento, num dado momento ele propõem ao grupo para que saiam daquele ambiente e se veja numa estrada cercada por um deserto, Sol poente, areia morna e grossa...assim foi conduzindo a narrativa. O grupo encontrou centenas de espíritos nos chão nas piores situações, tiveram que escolher apenas um para continuar a caminhada, foram cercados por outros menos amistosos, subiram um morro, no alto do morro ganharam um presente de um iluminado que os esperava e por fim retornaram ao “corpo”.
Iniciado os relatos enquanto um percebia a textura da areia diferente do outro, uma irmã não conseguiu se ver no deserto e se via em meio a uma densa mata, mesmo o mentor narrando deserto, uns viram espíritos numa areia movediça, outros nem sofredores viram, uns viam o Sol, outros não, uns levaram apenas um escolhido para subir o morro e outro levou vários, uns usaram armamentos astrais para afastar as investidas negativas, outros mesmo as tendo não se sentiu capaz de usar, no presente uns ganharam luz, outros espada, adaga e outros não ganharam nada.
Com estes relatos é que então percebi o que a espiritualidade vem insistindo em mostrar nas variadas lições sobre a individualidade do ser.
A ambientação narrada era simultânea a todos, porém, cada um montava as imagens diferentemente do companheiro ao lado e para ninguém nada se repetiu cada um com uma experiência diferente.
É aí que entra meu ensaio.
Hoje em dia, cientistas, doutrinadores, pensadores de todas as vertentes humanas, tentam por todo esforço sistematizar o ser, normatizar a mente, criar uma espécie de manual do ser humano, e dentro deste manual reza o certo e o errado, o justo e o injusto, o bom e o mal...
Como exemplo, me utilizarei aqui da realidade religiosa, a Umbanda, e os comportamentos individuais de médium x entidade. Este vulto sistematizador que paira sobre todos nós, rompe com a necessidade mínima da conduta ditada dentro de um templo e agride a estrutura particular de seus membros. Querem a meu ver, criar robozinhos que andem, pulem e gritem iguais para então assim acreditar que somos todos iguais, julgando isso ser humildade, unidade ou mesmo coesão!
É óbvio que temos que nos ater a alguns parâmetros de bom senso comportamental para que não haja as extravasões desconexadas dentro de uma liturgia. No entanto, não esqueçamos do indivíduo.
Cremos, na Umbanda Sagrada, que o ser é gerado por Deus individualmente, ou seja, ninguém é igual a ninguém, semelhanças podem existir, porém, igualdade jamais. E o que isto quer dizer?
Diz tudo!
Somos todos diferentes, sabemos disso, e insistimos em dificultar a convivência com as diferenças. Porque temos invariavelmente um resquício quase que incurável do narcisismo, ou seja, só é belo o que é espelho, na prática, é o mesmo que afirmar que determinado indivíduo busca no outro algo que enxerga em si, para uma identificação, que chamamos de afinidade algumas vezes, esta postura inconsciente leva os homens á repudiarem o outro semelhante que não é tão semelhante, pela diferença, sente repúdio e acusa que o outro é deveras diferente e que não merece devido respeito ou mesmo convívio. Desta forma é que se cria os clãs sociais, religiosos, partidos políticos, grupos de amigos, etc.
Bem, isto é fato, e inerente ao ser humano, somente que precisamos acordar para a realidade e que ou combatemos o narciso dentro de nós ou então continuaremos patrocinando a deflagração dos homens que jamais conseguirão superar esta doença que mais o afasta de seus semelhantes enquanto raça humana e só o fecha para o labirinto de espelhos.
Nesta ocasião da vivência citado acima, um companheiro alegou que gostaria de ver na Umbanda todos iguais, todos desprovidos de “vaidades”¹, todos comportando-se igualmente...Temos uma utopia, que se virar ideal, criará mais uma faceta divisora entre os companheiros de fé. Reforço aqui a máxima de que ninguém é igual a ninguém, mesmo quando temos a uniformização de um grupo, teremos a diferença nos gestos, pensamentos, conceitos, etc. De longe todos parecem iguais, ao aproximar-se vemos a individualidade. Que bom! Sentiria-me mal num terreiro cibernético.
Sendo assim, precisamos abrir o coração, desarmar o espírito e aproveitar a oportunidade de conviver em grupos que reúnem no mesmo espaço, ideal e trabalho as diferenças, e nessa diversidade poder extrair o que cada um tem de melhor a oferecer na somatória das atividades em prol da meta a ser alcançada.
Alguns chegam ao ponto de ao observar a diferença no outro, desacreditar totalmente na veracidade da dignidade ou mesmo das manifestações transmitidas pela outra parte. E quando se pergunta qual seria a forma correta, então lá vem o discurso que claramente ou entrelinhas vão dizer “seja como eu”. São egos apontando egos, ou melhor, narcisos combatendo narcisos.
Tudo isso faz com que as pessoas vivam em constante desarranjo emocional, inquietos e mais preocupados com o externo do que com o seu interior e qual o seu real papel no meio que está inserido.
Porque cada qual percebe o mesmo ambiente diferentemente do outro? Porque o sentido de justiça difere de um para o outro?
Se perguntarmos para um grupo o que é felicidade? O que é amor? O que é o mal? O que é moral?
Teremos respostas totalmente diferentes umas das outras pelo simples fato de sermos diferentes e como não bastasse esta diferença na alma temos cada qual uma experiência de vida totalmente diferente do outro e quando eu respondo o que é amor, esta resposta estará ligada ás minhas experiências, minhas percepções e minhas somente minhas conclusões. Isto me faz melhor ou pior do que alguém?
Assim querido leitor, solte o brado da liberdade e expulse o narciso que vive dentro de você, veja na diferença a oportunidade de aprendizado, de novas experiências, se permita para que também tenha a permissão.
A socióloga Hannah Arendt disse certa vez que “a pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir” ela ainda completa que “a ação é a fonte do significado da vida humana. É a capacidade de começar algo novo que permita ao individuo revelar sua identidade”. Freud no seu artigo A transitoriedade, de 1961 menciona “que tudo quanto é belo e perfeito só existe na nossa percepção”, ou seja, somos únicos.
Aqui proponho esta consciência, para a vida harmônica, ame-se por reconhecer suas virtudes e potências, supere isso e perceba no semelhante diferente as virtudes e potências que ele traz e como você pode somar com ele para um bem maior.
Antes de apontar a forma como o preto velho do outro pita o cachimbo, ou como o caboclo do fulano veste seu cocar ou como o exu de beltrano gargalha, saia da forma e entenda que mais vale ser do que ter. Seja original e aprecie a originalidade.
Acima de tudo ame a diferença, ame o ser humano por ser humano como você, complicado e cheio de defeitos, por falar de amor ao próximo recorro ao filósofo Emmanuel Lévinas que diz “o amor sem concupiscência é incondicional, e coloca-se à disposição do outro sem esperar simetria ética!”, ou seja, é o mesmo que o preto velho diz: “fio, ame o próximo sem exigir nada dele!”
Para ir finalizando lembro que Renato Russo diz em verso que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Diz ainda que, se pararmos para pensar, na verdade não há.
É isso aí, assim caminha a humanidade e enquanto um vendedor de flores ensina seu filho a escolher seus amores, vamos amando e se libertando para a tão almejada consciência ampliada!
__________________________
¹ Vide texto PROSA COM EXU.
DEIXE SEU COMENTÁRIO

terça-feira, 19 de junho de 2007

ALICERCE

Por Pedro Rangel
Certa vez, enquanto eu dormia, um amigo espiritual convidou-me a segui-lo a um local onde, segundo ele, poderia demonstrar-me algumas lições práticas sobre uma importante estrutura no ritual de umbanda.Motivado pela curiosidade e pelo desejo ardente de aprender, livrei-me de qualquer receio e pus-me a volitar juntamente com a entidade amiga.Estava todo feliz pelo fato de estar plenamente consciente de tudo o que estava acontecendo e esperançoso de poder encontrar alguma belíssima colônia espiritual de vibrações elevadas; qual não foi minha surpresa ao perceber que a entidade estava me levando em direção a uma localidade presente aqui mesmo na terra.O espírito amigo olhou para mim e sinalizou com a cabeça que havíamos chegado ao local onde eu iria ter o meu aprendizado.Não pude disfarçar minha estranheza ao perceber que o referido local nada mais era do que uma casa abandonada e estava mesmo imerso em meus pensamentos quando a entidade convidou-me a sentar no chão, olhou profunda e fixamente em meus olhos e perguntou-me:

— Companheiro, qual a estrutura mais importante de uma casa?Eu estranhei a pergunta mas respondi:

— Por acaso seria o teto?

— Você porventura poderia justificar sua resposta?

— Bem, penso eu que sem o teto qualquer casa fica exposta ao clima e a poluição e que por isso, não importa qual seja sua estrutura, um dia ela vem a baixo.Foi então que ele me fez uma preciosa pergunta:

— E se as colunas de uma casa não forem resistentes, por acaso elas agüentariam o peso de um teto ou de qualquer estrutura?Eu nem precisei pensar muito e respondi que isso seria impossível, já entendendo que a espiritualidade estava correta e que a estrutura mais importante de uma casa eram seus alicerces.

— O mais importante ainda, continuou o amigo espiritual, é que todos os alicerces da casa não tem a mínima idéia de que são dela a estrutura mais importante, tendo em vista que estão quase sempre revestidas por massas,pinturas ou qualquer outro tipo de ornamento e;não obstante tal fato, desempenham o seu papel com extrema perfeição.Eu lhe fiz este questionamento companheiro porque, como disse anteriormente, eu preciso fazer-lhe alguns apontamentos práticos sobre uma importante estrutura do ritual de umbanda que constitui-se em seus cambones.E a entidade espiritual colocando sua destra em minha cabeça dilatou minha percepção mental e sensorial de tal forma que eu, mesmo sem sair do lugar, fui levado em uma velocidade extremamente rápida a visitar vários terreiros de umbanda onde me foi solicitado que eu , em cada um deles, pudesse observar atentamente o divino trabalho dos cambones em auxiliar a Deus.Assim eu fiz e quando terminou a minha "imóvel viagem" eu abri meus olhos e o escutei perguntar:

— E então companheiro, nós visitamos vários terreiros de umbanda e , no que diz respeito aos cambones havia sempre uma situação que se repetia, diga-me, qual seria esta situação?

— Bem, o que eu pude observar é que independente do terreiro visitado em cada um deles eu via pelo menos um cambone com uma coloração energética pessoal bem mais apagada que a coloração de todos os outros cambones.Foi então que o amigo espiritual me perguntou:

— Você saberia dizer-me o motivo desta sua observação?Diante de minha negativa ele respondeu:

— Cada um dos cambones com a coloração apagada representa um médium que não está exercendo devidamente o seu papel de alicerce de uma casa; diga para mim o que você observou no primeiro terreiro visitado.

— Bom, no primeiro terreiro eu notei que o cambone com a energia mais apagada era uma médium que não guardava sigilo de absolutamente nada do que ela escutava as pessoas conversarem com a entidade que ela cambonava, muito menos se fossem os seus próprios irmãos de fé.

— Observaste bem, respondeu a entidade, esta cambone está com sua luz pessoal apagada por estar desvirtuada nos campos do conhecimento religioso, ou como dizem vocês na terra, por falar demais e indevidamente. Agora, diga o que você observou no segundo terreiro visitado?

— Nesta referida instituição religiosa a cambone com a luz mais apagada era um médium que ao invés de se concentrar mental e espiritualmente com vistas a auxiliar, via magnetismo energético, o trabalho desenvolvido pelas entidades preferia exarcebar toda sua curiosidade esquecendo-se de praticar a caridade.

— Novamente observaste com extremo apuro como um médium pode apagar sua luz pessoal de forma tão intensa quando encontra-se desvirtuada nos campos do amor ao próximo olvidando a prática do amor ao próximo em detrimento ao amor de sua curiosidade pessoal e despropositada; mas, diga-me companheiro, o que observaste no próximo terreiro visitado?

"— Neste terreiro a que se refere eu vi que um médium realizava suas atribuições de cambone com extrema má vontade e quando dele me aproximei para descobrir o porque eu pude ver que o motivo de tamanha má vontade devia-se ao fato do desejo do médium em trabalhar a favor da caridade não como cambone, mas sim por meio da incorporação;entretanto como isso, ainda, não lhe era possível ele cambonava com extrema desfaçatez.

— Muito boa a tua observação de como um médium desvirtuado nos campos da evolução, ou seja, neste caso, desejando praticar a caridade de uma forma que seus próprios merecimentos ainda lhe negam e olvidando orgulhosamente o trabalho divino de elevação e evolução espiritual através do divino ato de cambonar.Na realidade o cambone por você visualizado é um médium que desta casa espiritual gostaria de ser teto para que, de acordo com seu modo de ver, pudesse aparecer aos olhos do próximo esquecendo que as atribuições e papéis a desempenhar por um médium em um terreiro não é outorgada pelo vão desejo de nenhum ser humano, mas sim por Deus e que, aos olhos do criador todos têm a mesma importância. Agora diga-me o que você viu no outro terreiro que visitou?

— Bem, no quarto terreiro que visitei eu vi que a cambone com a luz pessoal mais apagada era uma médium que dava muito trabalho para as entidades no ato de cambonar pelo fato de literalmente se intrometer em tudo que as entidades falavam para as pessoas assistidas no momento das consultas espirituais e, pior, esta pessoa cortava abusivamente as falas das entidades para poder, elas mesmas, darem consultas aos assistidos como se estivessem no mesmo nível hierárquico e evolutivo das entidades que militam na umbanda.

— Muito bem notado companheiro o quanto a vaidade pode influenciar na luz individual de um médium e desvirtua-lo nos campos da fé quando este se esquece do fato de que apesar de serem nossos irmãos e amigos e de se apresentarem de forma simples e humilde sem fazer nenhum esforço para isso, as entidades que participam do ritual de umbanda são extremamente sábias e infinitamente mais evoluídas moral e intelectualmente do que todo e qualquer médium, devendo, não apenas por isso, serem tratadas com o máximo de respeito e dedicação equilibrada.Estou gostando de suas observações, agora diga-me o que você observou no terreiro seguinte.

— Bom, neste terreiro eu notei que o cambone que possuía a luz pessoal mais ofuscada era um médium que não cuidava de sua preparação ritualística para estar num terreiro de umbanda servindo a Deus e a espiritualidade .

— E eu lhe digo que o fato observado por você indica tão somente o quanto o médium pode desvirtuar-se nos campos da lei divina e assim diminuir intensamente o brilho de sua luz pessoal quando vai participar de reuniões sem tomar as devidas precauções com o álcool, a carne vermelha e o sexo esquecendo-se intencionalmente dos fundamentos sagrados destas ditas precauções, ou olvidando-os pelos mais escusos motivos.Mas não se acanhe companheiro, diga o que você notou no terreiro seguinte que foi visitado por você.

— Bem, no terreiro seguinte o cambone com a luz mais opaca era uma médium que estava presente no terreiro mas sem a menor boa-vontade.

— É companheiro, quando se está presente numa gira de umbanda para se praticar a caridade apenas em corpo físico e se esquece o mental e o emocional em outra localidade perde-se muito o brilho de luz pessoal pelo desejo de se chegar ao final do ano religioso e empaficamente dizer que participou de todas as giras do ano corrente, valorizando a quantidade em detrimento da qualidade mostrando claramente, assim, um desvirtumento nos campos da justiça divina.

— Mas companheiro, agora só para finalizar, diga o que você viu no último terreiro que visitou."

— No sétimo e último terreiro que visitei eu notei que o cambone que possuía a luz pessoal mais apagada era uma médium que vivia a criticar e podar todas as sugestões e idéias que eram fornecidas pelos seus próprios irmãos de fé não apenas pela vontade de manter um certo conservadorismo , mas principalmente por uma certa questão de força, para mostrar quem manda e também para defenestrar as idéias e criações do próximo.

— Bem companheiro, neste último terreiro visitado você pôde observar como um médium pode diminuir de maneira tão intensa sua luz pessoal por estar desvirtuado nos campos da vida.Sim pois posso lhe dizer que as idéias criadoras também estão presentes nos campos da criação divina que gera em si e de si este divino processo gerador de idéias que permite a evolução da humanidade em todas as áreas da vida. Na realidade isto significa dizer que a idéia criadora quando gera conhecimento, lei , justiça, fé, evolução e amor, na verdade, está gerando a própria vida no coração e mentes de seus companheiros de evolução;E quando um companheiro impede que as idéias sejam escutadas e discutidas ele está, simplesmente, se desvirtuando nos campos da vida por estar atuando contra a própria criação divina.Na realidade companheiro, de uma forma ou de outra, em cada terreiro visitado por você esta noite você pôde observar e compreender o porque de eu ter trazido você até aqui, nesta casa simples e, olhando pelos olhos humanos, até mesmo desprovida de beleza física.Eu te trouxe aqui nesta casa sem pintura, sem reboco e até mesmo sem teto para que você possa ver que mesmo ela sem possuir um teto continua de pé por que os seus alicerces estão firmes e, nesse caso, por falta de reboco,estão até mesmo visíveis.Faça um favor para mim companheiro, diga aos seus irmãos de umbanda que ser cambone é isso mesmo: é fazer tudo que lhe é solicitado com amor carinho e desvelo, fazendo o maior esforço para ser visível apenas a pratica da caridade, e não a individualidade de cada um.Diga aos seus irmãos que a maior qualidade de um cambone e de todo médium no desenvolvimento de sua mediunidade é isso mesmo que eu lhe digo: ser invisível aos olhos humanos e visíveis apenas aos olhos de Deus, sendo verdadeiramente o alicerce de uma casa nova e recente mas que precisa de fortes alicerces para ser duradoura, prática e útil a quantos dela precisarem para morar; uma casa tão simples e humilde quanto esta que agora estou a lhe mostrar nesta noite, uma casa de amor , magia e caridade; uma casa, companheiro, que é minha sua e de quantos precisarem, uma casa chamada umbanda. Saravá aos Cambones!!!!!!!Saravá Umbanda!!!!!!!


Contato com o Autor - ropelo2000@yahoo.com.br

segunda-feira, 11 de junho de 2007

PROSA COM EXU - Um diálogo sobre vaidade

Por Rodrigo Queiroz

- Salve tu cabra!
- Salve vós Exu!
- Cabra, escreve umas coisas aí.
- Pode falar.
- Existe algo no ser humano que gera muita preocupação a todos nós e que mais complica a vida de vocês encarnados.
- Do que vós está falando?
- Da imperceptível sombra da vaidade.
- Ah sim, conheço...
- Então, vim aqui dissertar sobre isso, e mais me preocupa é o coração dos que se dizem companheiros de caminhada e mais fazem é piorar situações delicadas no relacionamento inter-pessoal e pouco contribuem para o auxilio daqueles que são parte de um conjunto.
- Sei...
- Como disse, a vaidade é uma sombra imperceptível que assola cedo ou tarde a vida de todos neste plano e ela, a suposta vaidade, pode ser em verdade a extravasão de uma série de necessidades do individuo como carências, traumas, etc. Existem milhares de facetas desta sombra e garanto, ninguém está livre dela, bem dizendo, aquele que se diz não vaidoso, já o é, pois afirma isto se envaidecendo de uma suposta nobre e mentirosa humildade. Há há há. Tolos.
- Senhor, acho que entendi, mas está um tanto complicado...
- Já explico cabra. Digo que ninguém está apto a apontar ninguém. E aquele que enxerga um “defeito” no outro a ponto de se incomodar, deveria entender que está vendo no outro o seu espelho, reconhecendo nele o que tanto incomoda em si mesmo e por incapacidade de se auto superar, apedreja o próximo, a fim de anular aquilo que em si o apavora. Complicou?
- (risos) nossa, parece que estou conversando com um analista.
- Há há há. Se estiver complicando é sinal que deve ler e reler estas palavras até que fundo toque sua alma.
- Farei isto Senhor.
- Então continuemos. Coloco a exemplo um grupo, ou melhor, um terreiro. Onde uma comunidade divide um mesmo espaço, conseguinte o mesmo ideal e propósito interno. Sendo assim, para todo grupo o que deve existir é respeito entre si e, respeito não é sorrisos falsos ou tapinhas nas costas. Respeito é algo que poucos sabem e que a falta do mesmo é que promove tanta discórdia e confusões entre os indivíduos.
- Realmente a noção de companheirismo e respeito é diferente de um para outro.
- Certo. Um fator relevante é a atração de afinidades que varia de um para outro dentro de uma mesma comunidade. Até aí tudo certo, portanto, não deve esquecer que aquele que não inspira grande afinidade a você não pode ser descartado do convívio ou dar menos importância, pois conviver com aqueles que só o agrada não trás mérito algum no processo evolutivo do desenvolvimento da tolerância, respeito ás diferenças e união de propósitos que deve transcender o umbigo.
- Certo Exu.
- Desta forma, pergunto, sabes reconhecer a vaidade?
- Penso que sim.
- Pensa?
- É, entendo a vaidade na extravasão do ego.
- Ego cabra? Há há há.
- Qual a graça?
- Vocês são tolos, então reconhece a vaidade no ego extravasado? Não me faça rir cabra. Como pode falar de Ego? Então vocês são assim, querem o tempo todo sistematizar o ser humano, espécie esta das mais complexas criações do Criador. Sistematizar é criar estes parâmetros, ou seja, vaidoso é aquele que age assim, assim, assim. Humilde é aquele que se comporta assim, assim, assim. Não, não. Este não é e nunca foi um bom caminho, pois esquecem que cada qual é um ser único, e você tem toda uma estrutura própria, diferente da minha que é diferente dos demais.
- Entendo, então como fica? Se não podemos sistematizar, como sanar problemáticas? Parece que o Senhor como um bom Exu está querendo me confundir.
- Nada disso cabra, não venho aqui confundir, ainda que seja nossa especialidade. Há há há.
- Então esclareça senhor.
- É simples. Quero que fique entendido que antes de qualquer apontamento dentro de uma comunidade é fundamental a análise de si mesmo. E o que está sendo apontado deve passar pelo crivo do respeito e do amor. Percebo que quando isto acontece o individuo apontado não vira motivo de imitações, chacotas ou piadas, estes comportamentos nada mais apresenta do que a podridão do responsável pelo dedo que aponta. O simples deve contribuir para auxiliar aquele que se excede ou mesmo erra sem que se aperceba.
- Errar sem perceber? Mesmo onde existam esclarecimentos?
- Sim, ainda bem que existe uns e outros que não prestam a devida atenção nos ensinamentos, para provocar no orientador a necessidade de renovar suas ferramentas a fim de envolver a atenção dos seus orientados.
- (risos) estou entendendo.
- Cabra todos erram, todos deixam a desejar, será que é tão complicado entender isso? O que deve ser avaliado é o resultado final de um trabalho, isto é realmente importante, e numa corrente, um deve complementar na necessidade e franqueza do irmão ao lado, por isso cada qual é diferente do outro.
- Este é o ideal né Exu?
- Mais que isso, deve ser uma realidade, caso contrário o caos se instalada.
- Sei...
- Assim, não é aceitável apontamentos atrás de apontamentos, crivados pela vontade de ver o outro prejudicado. Não é bem visto “irmãos” que ridicularizam seus “irmãos”, cadê o companheirismo? Cadê o amor? Afinal, onde está a tolerância das diferenças? Se você pensa que não precisa conviver com as diferenças então é chegado o momento de se isolar no cume do monte mais alto que possa encontrar e lá sozinho buscar sua transcendência... há há há.
- Que ironia Exu!
- Irônico são vocês, bobocas que só perdem tempo, olham demasiadamente para o lado e esquece de si próprio. Estão tão preocupados com o outro sem antes se garantir no trabalho a ser executado. Não digo que olhos devem ficar cerrados, no entanto, abra-os com amor.
- Certo Exu, então o que fazemos quando um companheiro de excede.
- Converse oras.
- E como abordar isto?
- Bem, primeiramente quando se trata de um terreiro o melhor para esta abordagem é o próprio Dirigente, uma vez que a ele é dada a função de guiar os membros.
- Sei...
- Mas antes é preciso que se observe todo um histórico o individuo, sua história, sua educação, seu signo, seu orixá, sua metas etc. Pois o que parece “vaidade” pode ser um excesso de carinho, de contribuição ou porque não, excesso de dedicação.
- Dedicação se excede?
- Oras, é óbvio que sim.
- Passando por este crivo, então é bom que uma franca, amorosa e longa conversa aconteça, com zelo e preservação.
- Parece fácil.
- Mas não é. E aconselho a todos que não fiquem dando ouvido a tantas falácias de outrem. Faça sempre sua própria avaliação e saiba que sua avaliação estará fatalmente ligada a sua limitada compreensão do meio. Sendo assim amplie sua consciência, conhecimento, amor e compaixão ao próximo. Dê as mãos áquele que acredita necessitar de ajuda, aproxime-se dele e sutilmente contribua no auxilio, caso contrário, cale-se e não crie tanta polêmica sobre aquilo que invariavelmente nem te pertence. Todo julgo já é o retrato de auto exaltação. No amor reside a compreensão, ou ao menos a sincera vontade de constantemente ser útil para o melhor de todos.
Assim cabra, deixo meu salve a todos que este texto lê e peço uma nova leitura afim de se encontrar nas entrelinhas ou nas linhas...há há há...e que seu coração entenda que mais vale colaborar, contribuir, somar para que os resultados aconteçam.
Ame-se e ame seu meio com tudo o que ele te oferece.
Nas diferenças encontre suas falhas.
Nas semelhanças se fortaleça no aperfeiçoamento.
Na incompreensão aproveite para se olhar no espelho e ver o quanto pequeno és.
Salve tu cabra e salve eu!
Salve sua força Sr. Exu Tranca Ruas das Sete Encruzilhadas!

Após esta prosa me lembrei de uma lição muito antiga e conhecida.

“Pessoas sábias falam de idéias,
Pessoas medianas falam de coisas,
Pessoas medíocres falam de pessoas”

(Ditado no dia 07/06/07)